Projeto TAMTAM: 21 anos de experiência em Arte e Loucura ou a estética da linguagem como arte de expressar as diferenças.

A língua que enrola a fala, que distrai o verbo, que ilude o verso, reproduz a linguagem dos que pensam.

O risco- traço desgastado, grafismos de um grito quase Goya, quase capricho, que "a louca" de vestido de bolinhas – pop – falava, mostrando a caligrafia de um tempo torto. A dramaturgia desagradável quase teatro pobre – cruel nos abscessos - para a qual alguns diriam: "Bobagens!"; outros, "Castigo...", e, outros, "Paixão!". Puros fragmentos, em cena seca – diálogos do silêncio – numa arquitetura dura.

A dramaturgia grega associou em nós a tragédia, o inevitável, o destino inglório do homem.

A linguagem do ato insubstituível, desse mundo excluído, criado pelo homem para outro que se faz ninguém, nos turva a face e desfoca o olhar. O mundo que se cria com o outro produz sentido ético/estético por acaso e pelo acaso. A socialização do prazer, provocada por escândalos de experienciações em encontros comuns com o outro. Esse compartilhar de emoções e paixões provoca rupturas e cria a língua (quase silêncio), a vanguarda, o alfabeto dos excluídos, uma real produção do romance, do poema e da poética – um novo signo cultural com vozes diversas de dizeres tantos, de um olhar "além do olho".

Não se trata de um elogio à piedade e nem a utilidade da arte – não se trata de uma arte-show – mas sim da estética de uma ética de aquisição de saberes: a linguagem, voz de todo corpo, numa nova produção de valores – ressonância do assombro... Talvez um gesto de amor (homem/humanidade).

Romântico demais? Você acha?

Falas do que? Dos hospícios ou dos castelos? Da favela ou dos cortiços? Das tribos? Gangs?... O que é isso? Algum movimento filosófico? Pós-modernidade? Ou será a exclusão da tese?

... Então, a "mulher de vestido de bolinhas" se vestiu de branco, atravessou o palco numa mala de ferro também branca – quase Dalí, mas é Pop-art... Êxodus... Onde um virou dois... dói, é macumba – baba –Dadá. Está feliz.

"Precisamos, mais uma vez, dar ouvidos aos loucos e aos profetas. Precisamos recuperar nossa cabeça."

O que se deseja é o direito de poder pensar artisticamente... Poder expressar a Arte sem, mais uma vez, vê-la associada a um sofrimento diagnosticado. Pois é mesmo um sofrimento a razão desse existir, desse bem-estar, dessa felicidade dessa alegria.

O que se deseja, então, é poder expressar, sem pressões, com conteúdos próprios, as nossas diferenças.

"Mas, enquanto isso não se tornar possível, teremos que ser radicais, não por opção estética, mas por desconfiança." (Galícia, 1972)

Di Renzo - Fundador





A ONG foi criada como forma de dar continuidade à filosofia de trabalho criada pelo arte-educador e artista plástico Renato Di Renzo, na Casa de Saúde Anchieta - hospital psiquiátrico que sofreu intervenção municipal em 1989, por denúncias de maus tratos e morte de internos. Naquele ano, a Administração Pública Municipal convidou Di Renzo para trabalhar com teatro e arte naquele local, batizado pela sociedade santista como "A Casa dos Horrores".

Na época, o arte-educador trabalhava em São Paulo em núcleos de teatro e expressão em periferias, ministrava aulas em escolas, expunha trabalhos e o convite para voltar a Santos fazendo arte com os ditos 'excluídos' foi uma proposta irrecusável. A partir dali, travou uma batalha para intervir na cultura e nos preconceitos da sociedade a respeito da loucura e dos loucos: criou o Projeto Tam Tam - nome batizado em referência ao instrumento musical africano e à gíria brasileira - e revolucionou a saúde mental em Santos.

A proposta desenvolvida por ele nunca foi de ocupação de um tempo, mas de produção desse tempo. Os pacientes participaram de oficinas de teatro, conheceram a história das artes, produziram o jornal 'Tam Tam Urgente' e foram os estilistas da 'Grife Tam Tam', com camisetas pintadas à mão e confecção de bijuterias.

NO AR: A RÁDIO TAM TAM

UM PROGRAMA DO TAMANHO DA SUA LOUCURA

Com a Rádio Tam Tam, feita pelos próprios pacientes que se auto denominavam 'loucutores', o projeto ganhou notoriedade nacional e internacional, servindo de modelo para outras iniciativas, como a Rádio La Colifata (Argentina), o Projeto Lokomotiva (Rio Grande do Norte) e a Rádio Trovão (Praia Grande). Funcionando a princípio em caráter experimental, dentro do Anchieta, passou a ser transmitida pela Rádio Universal AM em 1990.

A Rádio Tam Tam foi pauta do Programa Jô Soares Onze e Meia, Dóris para Maiores, Fantástico, Goulart de Andrade, 25ª Hora e Vitrine e de jornais e revistas de todo o país e do exterior, como Washington Post, New York Times, Folha de S. Paulo, Estadão, Veja, Época, Fanzine, Claudia, Caderno Zap e Rádio BBC de Londres.

Os 'loucutores' adotavam nomes artísticos, como Billy Paul, Bombástico, Ideubranco, Pinel das Caatingas do Nordeste, Marcelo Bruno e Kátia Flávia. A equipe da Rádio realizou diversas intervenções ao vivo, em cidades como Porto Alegre, Rio de Janeiro, Presidente Prudente, São Carlos e São João Del Rei.

Com seu trabalho pioneiro, Di Renzo ministra palestras em universidades, congressos e encontros e presta consultorias para diversas iniciativas nas áreas de educação, artes e saúde mental por todo o país. Além disso, o projeto é fonte de pesquisa para teses de graduação, mestrado e doutorado de faculdades de pedagogia, comunicação e psicologia de várias universidades brasileiras.

Santos foi a primeira cidade brasileira livre de manicômios, referência no país e no exterior. No intuito de preservar a grandiosidade do trabalho foi fundada, em 1993, a Associação Projeto Tam Tam.




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